quarta-feira, 29 de outubro de 2014

A Lembrança

A Lembrança
Fiz de mim um ramo de papel
De rabiscos à desenhos, virgulas entre reticências
Fiz do tempo meus olhos
Minhas viagens
Fiz de minhas mãos, estradas
Mãos de ferro
Fiz de um céu de chumbo, covas celestes
Fiz da terra, salivas de estrelas
Sobre o mundo: desci sorrindo
Nas palavras descobri os infinitos, e até os sinais inabitáveis do ser
Tive tantas idas, que nem as vindas me trouxeram
Tive mais sonhos que lembranças
Mas na verdade, fui de um corpo onde não estive,
fui palavras que não ficaram
E debaixo de uma árvore me reinventei, fiz da sombra a promessa do sol
Mesmo sem saber como caminhar, segurei o vento
E disse ao tempo que me achasse.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

O Jardineiro no Campo de Estrelas

Queria ter todo sonho daquele homem
Homem da manhã, do tempo certo, das flores, das estações
Mais correto que o tempo, mais destino que as horas
Não tinha pressa, não havia imagens
Apenas seu altar de grama
Para ele, os insetos eram a certeza da eternidade
Pois mais leve que o vento, só o infinito que nos espera
Tinha em seu bolso as sementes da memória
Do caminhar perene, sua força era para levantar almas
Não mais estradas...
Sorriso presente, como quadro numa árvore perdida
Fazia da montanha um corpo navegável
Era marinheiro das idades
Não tinha mais cabelo, nem espelho para notá-los
Tinha apenas a água que bebia de imagem
Corpo a corpo com seus bichos
- Medo dos vazios
Sua maior amiga, uma pedra, que da fala só esboçava o silêncio
Tudo que precisava ouvir.
Tinha mais medo que todos nós dentro da casa de areia
Sabia que um dia teria sua casa num barro perto do chão
dentro das flores que regava
Mas guardava no coração toda a razão da vida
Ser tão leve e pequeno quanto a mariposa que o habitava.

sábado, 4 de outubro de 2014

Confissão do Mesmo

Confissão do Mesmo
E se por algum espaço caminhasse sobre mim mesmo
Se toda matéria perdida, a fome do tempo voltasse
Lentamente por terra
Rastejando sobre um espaço sem tempo
Numa escuridão maior que a vida,
que os sonhos
Não me visse em lugar algum
Não sentisse mais a pele, o tato das pedras
As ladeiras no horizonte, nada!
Se aos poucos, com os pés, tateasse redondilhas
E os corações, não menos pisados, também falassem
E o céu abrisse em uma calma indissipável
Velho e necroso ar respirável
Sinto que meu peito também os abre, entra-me
E desafoga um oceano de abismos
Que no eco se perdeu
Meu acaso, se tornou encontro
Instante do futuro
Olha, escuta, sente as palavras dos pássaros
São nelas que a verdade habita
Na mesma ponte do passar noturno, me vi parado
Um corvo da certeza, sem resposta
Mas como seus olhos demorassem a responder; os vi, como nuvem de chumbo
Atados nos risos que neles, perenes, agradecia
Todas as mãos já erguidas, fazendo os olhos chorar no rajar do vento.