Ontem morri... Acordei com dois tiros no peito
E um mar de hipóteses vagando sobre o quarto
A pele moldada e frouxa, se debatia e abatida
Não havia flor que a corasse
Todo quarto em preto e cinza, como foligem
Sentia-se até o cheiro do fogo, brazando a alma
Na espinha, descia fervendo toda mágoa de uma vida avulsa
Sem paredes, sem teto, sem ruínas
Os olhos entreabertos, não mais que entreabertos, perpassava a loucura que a mente conduzia
Minha sombra era insosa, vagava atrás da luz de meu quarto
Sem abajur, o quarto era uma tormenta
e sem janela, janela d'alma, água vazia
A casa ruía em desprezo e saudade
Não se ouvia vozes, só lamentos
A rua em frente, um carnaval se passava
Todas as pessoas desnudas, alegres, e coloridas
Coloriam o preto de sua alma, enfim alma
Não se falavam, eram amigas
Minha casa, minha vida, minha morte
O que vem depois da morte?
Quem sabe outra vida
Não há flores no deserto, sob ele há imensidão
Permitia tão circuspecta forma, o espelho
Tão ávido, de forma que sentia as dores
O outro, me olhava, e não me via
Não me via por dentro, era um espelho sem alma
Eu já surdo, com as balas no peito, fadiguei
Li minha história em um livro sem páginas
Um livro de capa marcada, de quem já sabia onde viver
A minha ínfima área da vida, como um terraço
Era sujo, cheio de marca de pombos
Mas os pássaros que lá habitavam, faziam seus ninhos em formas sobre sua cabeça!
Meus óculos, minhas mordaças, minhas memórias, não existem mais
Hoje me tornei poça de sangue, como bicho do mato
Clautro, dentro de minha arma
Me tornei poça de solidão, como uma flecha errante
Senti que me perdoava, mas não ouvia o meu perdão.
sábado, 26 de abril de 2014
O Exílio
Se passasse, como meramente anciã
Claustra, bêbada, com um galho entre os dentes
A velha batina, com a poeira de ontem
Pés soltos, terra nas unhas, unhas onde não há mais
Seguir os astros, com a fidelidade que os têm
Ver que uma estrela sempre soube que era mais que astro
Era órgão, dentro do peito, âmago!
Carinho de irmão
E como se entreabrisse, engolindo a saliva que já palpitava o gozo
Escorrendo pelo canto da boca, todo anelo, toda rocha inabitável da alma
Mesmo sabendo sobre a pedra, a pedra que não fala
Essa pedra que ao meu lado, caminha, ao desnortear sentimentos
De mudar a rota geométrica da lua
De fazer a vida real, o sentido da loucura
De sentir cortar a carne, sair o fel inodoro, ambíguo
de quem nos torna terreno
A terrível forma de lazer dos homens
De erguer os edifícios, as casas insalubres
as montanhas secas, os mares secos
As mortes secas
Mas como suspirasse uma forma mais louvável
Sentindo o gosto do verniz do caixão de zinco
Ter seu corpo coberto por uma pluma de chumbo
As entranhas transpirassem até de forma coloquial
Todo suor guardado durante anos
Se ver livre daquela máscara neutra
A cima do muro, por cima da vida
Os pelos, ainda ouriçados com o perfume que chega mais perto
As nádegas enrijecerem... A solidão subir entre as espinhas
Tudo se torna tão vazio
Quando o abraço é oco e cáustico
Sem força nem para fechar os olhos
Ter no abismo, a mais infinita salvação e exílio
Olhar para os pés em fome viva
Subindo as escadas, para o quarto
Tatear parede, sentir cada rosto em taipa
Até chegar a cama encharcada em lama
E com febre deitar-se, e sonhar que tudo acabou.
Claustra, bêbada, com um galho entre os dentes
A velha batina, com a poeira de ontem
Pés soltos, terra nas unhas, unhas onde não há mais
Seguir os astros, com a fidelidade que os têm
Ver que uma estrela sempre soube que era mais que astro
Era órgão, dentro do peito, âmago!
Carinho de irmão
E como se entreabrisse, engolindo a saliva que já palpitava o gozo
Escorrendo pelo canto da boca, todo anelo, toda rocha inabitável da alma
Mesmo sabendo sobre a pedra, a pedra que não fala
Essa pedra que ao meu lado, caminha, ao desnortear sentimentos
De mudar a rota geométrica da lua
De fazer a vida real, o sentido da loucura
De sentir cortar a carne, sair o fel inodoro, ambíguo
de quem nos torna terreno
A terrível forma de lazer dos homens
De erguer os edifícios, as casas insalubres
as montanhas secas, os mares secos
As mortes secas
Mas como suspirasse uma forma mais louvável
Sentindo o gosto do verniz do caixão de zinco
Ter seu corpo coberto por uma pluma de chumbo
As entranhas transpirassem até de forma coloquial
Todo suor guardado durante anos
Se ver livre daquela máscara neutra
A cima do muro, por cima da vida
Os pelos, ainda ouriçados com o perfume que chega mais perto
As nádegas enrijecerem... A solidão subir entre as espinhas
Tudo se torna tão vazio
Quando o abraço é oco e cáustico
Sem força nem para fechar os olhos
Ter no abismo, a mais infinita salvação e exílio
Olhar para os pés em fome viva
Subindo as escadas, para o quarto
Tatear parede, sentir cada rosto em taipa
Até chegar a cama encharcada em lama
E com febre deitar-se, e sonhar que tudo acabou.
O Hóspede
Terminaria hoje sua despedida, em família
Como se não houvesse ninguém para escutar
Tal apelo, como um grito sobre a rotação da terra
Grito dentro de uma sala deserta
Socando as paredes, com tal força...
Socava o coração
De tal modo que sentia os seus passos chegando
Lado a lado, como pares de mortos
Que de nadar, afogava-se nas próprias lágrimas
Em total desespero, balbuciando qualquer nota, em soluço
Mas era tapada boca, por bocas
Não havia palavras a serem ditas, nem olhares presentes
O que havia era um infinito em questão
Tão incerto e louco, como uma beleza vazia
Olhava-se para ela e não via que ali, a beleza não existia
Era solidão.
Como se não houvesse ninguém para escutar
Tal apelo, como um grito sobre a rotação da terra
Grito dentro de uma sala deserta
Socando as paredes, com tal força...
Socava o coração
De tal modo que sentia os seus passos chegando
Lado a lado, como pares de mortos
Que de nadar, afogava-se nas próprias lágrimas
Em total desespero, balbuciando qualquer nota, em soluço
Mas era tapada boca, por bocas
Não havia palavras a serem ditas, nem olhares presentes
O que havia era um infinito em questão
Tão incerto e louco, como uma beleza vazia
Olhava-se para ela e não via que ali, a beleza não existia
Era solidão.
O Instante
Um dia sinto que existi
Por não mais que um segundo, talvez milésimos
O que importa é que fui matéria
De indecifrável cor
Sentia que podia amar, amar mais do que podia
Só não tinha espaço para os passos
Que entre os dedos escapavam
Que entre as portas, se tornavam estrelas
Não sentia qualquer sentimento
Qualquer abalo sísmico ou circunspecto
Por ser homem: homem que rasteja, sem pedir esmola
Vi que os astros - de esferas- não eram mais do que calos
Soltos em mãos divinas
Não percebia, que de uma lágrima nasceria, com tanta beleza, todas as rosas do mundo
E que por mais que não estivesse descalço
sentia toda erosão, como ácido
derramar fuligem sobre mim
Em total lasso d'alma, me vi obrigado a derreter
me tornar vertigem em meio a multidão
Solidificar, enrijecer no espaço
E ser todo centímetro, em forma viva da hora nua.
Por não mais que um segundo, talvez milésimos
O que importa é que fui matéria
De indecifrável cor
Sentia que podia amar, amar mais do que podia
Só não tinha espaço para os passos
Que entre os dedos escapavam
Que entre as portas, se tornavam estrelas
Não sentia qualquer sentimento
Qualquer abalo sísmico ou circunspecto
Por ser homem: homem que rasteja, sem pedir esmola
Vi que os astros - de esferas- não eram mais do que calos
Soltos em mãos divinas
Não percebia, que de uma lágrima nasceria, com tanta beleza, todas as rosas do mundo
E que por mais que não estivesse descalço
sentia toda erosão, como ácido
derramar fuligem sobre mim
Em total lasso d'alma, me vi obrigado a derreter
me tornar vertigem em meio a multidão
Solidificar, enrijecer no espaço
E ser todo centímetro, em forma viva da hora nua.
O Óvulo
Um dia fui para casa, sem saber para onde ia
Fui temendo haver algo a mais, algo que não sabia
Descia ao todo, pelo pacto que formamos
Explorava a inexorável forma de viver, os outros, as aves, a vida...
Não temia -já temendo- o infinito, por ser findo
Observando cada telha, e mais telha, sobre a forma da vida
As casas, os mares, os Afonsos, os Silvas, até a morte
Que separou um casulo, da própria vida
Temia ter razão sobre tudo
Ter vivido tudo o que havia
Ter sentido todos os perfumes da terra
E ter a terra dentro de mim
Como um nódulo de amor
Um câncer, de eternidade imensa, de ser mais infinito até a última estrela
Não basta deixar, há de socorrer os abismos
Entre todas as lástimas: viver, mesmo sendo a primeira, é a única que vale a pena
Ter no ventre a forma de ser vida
Como pólen: germinando a passagem do vento
Sem deixar rastros, só certezas
Sinto saudade, sinto e acuso
todos que a deixaram só
Mas não existe natureza maio, que a vontade de tornar de novo, o novo
de sentir a paz, todos os dias, nos braços da felicidade.
Fui temendo haver algo a mais, algo que não sabia
Descia ao todo, pelo pacto que formamos
Explorava a inexorável forma de viver, os outros, as aves, a vida...
Não temia -já temendo- o infinito, por ser findo
Observando cada telha, e mais telha, sobre a forma da vida
As casas, os mares, os Afonsos, os Silvas, até a morte
Que separou um casulo, da própria vida
Temia ter razão sobre tudo
Ter vivido tudo o que havia
Ter sentido todos os perfumes da terra
E ter a terra dentro de mim
Como um nódulo de amor
Um câncer, de eternidade imensa, de ser mais infinito até a última estrela
Não basta deixar, há de socorrer os abismos
Entre todas as lástimas: viver, mesmo sendo a primeira, é a única que vale a pena
Ter no ventre a forma de ser vida
Como pólen: germinando a passagem do vento
Sem deixar rastros, só certezas
Sinto saudade, sinto e acuso
todos que a deixaram só
Mas não existe natureza maio, que a vontade de tornar de novo, o novo
de sentir a paz, todos os dias, nos braços da felicidade.
Soube que era Assim
Trouxe o mar à areia
Traria até as estrelas, se soubesse flutuar...
Se soubesse flutuar, traria todo amor que voa para cá
Para todos saberem o que é amar
Mas não adianta amar sem tirar os pés do chão
Amor é como pluma, bate no coração e voa para eternidade.
Traria até as estrelas, se soubesse flutuar...
Se soubesse flutuar, traria todo amor que voa para cá
Para todos saberem o que é amar
Mas não adianta amar sem tirar os pés do chão
Amor é como pluma, bate no coração e voa para eternidade.
quinta-feira, 9 de janeiro de 2014
O Dito
Ele ao encontrar si mesmo
Arrependeu-se
Do que foi, e é
Além de tudo, foi homem e mulher
Foi mágico, além da esperança
Foi selva e estrada
Sobe seu corpo
Passaram mais de mil cavalgadas
Foi deserto... Também ventania
Chegava aonde queria
Como poeira, vinha de todo lado e entrava em qualquer lugar
Queria estar ali... Não podia!
Mas se arrependia do que não fez, das tristezas
Das saudades, dos horizontes ainda não vistos
Caminharia aonde quer que o encontre, ele mesmo
E sem total companhia, sem total franqueza
Com passos geométricos, alegria nas mãos
Coçava a barba branca, que já caia em decúbito
Deixando um rastro no caminho onde passava
Traçando o que sabia sobre a vida
Apontando seus dedos, mais afiados, todo o dia
Sua língua já inóspita e bebia
Tudo o que haveria de haver, para nós
Tudo o que tinha em seus bolsos
Tudo que o vento levava e a água trazia
Tudo o que nos restava, o amor.
Arrependeu-se
Do que foi, e é
Além de tudo, foi homem e mulher
Foi mágico, além da esperança
Foi selva e estrada
Sobe seu corpo
Passaram mais de mil cavalgadas
Foi deserto... Também ventania
Chegava aonde queria
Como poeira, vinha de todo lado e entrava em qualquer lugar
Queria estar ali... Não podia!
Mas se arrependia do que não fez, das tristezas
Das saudades, dos horizontes ainda não vistos
Caminharia aonde quer que o encontre, ele mesmo
E sem total companhia, sem total franqueza
Com passos geométricos, alegria nas mãos
Coçava a barba branca, que já caia em decúbito
Deixando um rastro no caminho onde passava
Traçando o que sabia sobre a vida
Apontando seus dedos, mais afiados, todo o dia
Sua língua já inóspita e bebia
Tudo o que haveria de haver, para nós
Tudo o que tinha em seus bolsos
Tudo que o vento levava e a água trazia
Tudo o que nos restava, o amor.
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