sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Pele

Fruta que do pé caiu madura
Caiu sentada, rolou sobre as alturas
Fruta que se fez deitada, virou sumo
Do suco, líquido, sólido pensamento
Entre folhas cervicáis, onde esquentam em seiva
Onde deserta o pássaro
Que acalanta o vento, frio
Que do ar errante, se foi rebento
N'outro ano, ficou a primavera
Do broto verde, amargo e cálido
Ainda seco, pálido
Não se achava, dentro d'outro, procurava...
Nas nuvens, ouviam dizer, que fora para lá
E não fora, amigo
Meu inimigo se veste de casca falante, era branco
Da mão, contempla-se em foice, fosse
Amante verde
Fosse ave sem asa, galho negro
Mata sem voz
Que mora longe
Que diz ao tempo, que me ache.

À Minas

Deste lugar não nasci
Porém, deste lugar, estive, em alma e corpo
De toda vida e por toda vida....
A perder de vista, além do sol, do seio dos montes
A beleza das manhãs, que sozinhas, parecem eternas
Dos quadrúpedes, das asas, dos rios e nascentes
Dos ouvidos infinitos, gritando pelo silêncio
Silêncio único este, que só se ouve o coração matutu
Coração da terra, puro e limpo como chuva
O abraço mais que apetado, de todos os dias, em felicidade
Aquela felicidade! Sem medo de não se ver mais, sem medo da alegria
As andanças sem fim, na rélva que termina com a mesa posta
A cama perfumada, as rosas em abroche, e as mãos apertadas
Acordo hoje, e vejo as aves que passaram
Do mar, além das montanhas, estive
De Minas, além das sombras e colheitas, revivi
Não sou desta terra, porém, desta terra nasci
Em Minas não nos vemos, nos sentimos...
Somos perto da terra, do céu, da lua
Somos cavalo de guerra, coração inútil
Em Minas estamos tão perto de Deus, que ele nos fala ao som dos bichos
Não tenho culpa de minha terra, mas se aqui, voltarei um dia
Da lavra e da morte em cúbito
Me fujas, Alma de mineiro
Pois aqui estarei perdido, em dias e manhãs...
Vagando alegre, sem saber em que árvore subir.

A Sombra e a Gaivota

Meu caminho enfeitou, tornou-se seco
Minha estrada é a seguinte, a última é sempre lembrança
Esperança é o que teremos melhor do que ontem
Não me sinto sozinho... Tenho amante! É minha alma!
Minha certeza é a sombra que me guia adiante
Aos teus passos, sigo, conforme a luz que me rege
Se ela vem de cima, me espalho a sete ventos
Se por trás me reflete, para frente te sigo
Porém se já vem do destino, não a vejo, sou eu mesmo que sinto.
No mar me perco, a gaivota é constante
Medo de remar, vagar sem restante
Hoje em dia vejo mais o que piso, do que respiro
Se é na água que caminho, são lágrima que deixei
Porém, se é no chão meu destino, algo importante caminhei.

Calmaria

O mar secou atrás da porta
Abriu-se para fora
Vinha vendaval
Correndo... Vinha-se, o vendaval
Tremendo... Dizendo que era dia de ficar em casa
E nós, correndo, tendo a cama, como arca, escondendo
Toda a agonia e o argumento da felicidade
Mamãe, de voz alta, trazia cobertores
Eram poucos, de fato
Porém, eram todos, para todos
Ela, também aflita, descia até o chão e nos abraçava
Abraço de mãe: melhor abrigo da terra
E pois a terra falava, grunhia, soluçava de raiva
A gente, sem só, em correria, esperava a bonança da chuva
Chuva que caia, lavava o pé da macieira...

Passava o tempo, os pássaros já piavam alegria
No rio, vovó colhia lírio para enfeites
As nuvens, eram só ternura, minhas mãos, mais calmas
Mais doces, mais brandas
Meus olhos espelhavam o infinito, sobre a relva branca que subia
Ao céu destino, de todo orvalho em fumaça
E todo abraço, caminho de todo sentimento em desgraça.

Em Mim

Quando a ti, olho...
E para o mar, não canso de olhar
E a ti, beijo
E ao desejo não canso de beijar
A ti, sinto
Ao encanto não deixo de sentir
Ti, procuro
Procurei em ti, a mim, e encontrei tudo que perdi.
De mim, ao peito, em leito
Me deito, em ti, e fujo sob sonhos em avesso
Pois, a ti, se tornou meu lado, inteiro
E por ti, te darei a todo, o mar, sem meio, semeio
O caminhar nas águas, perdendo em mim, as águas
De um rio, de margens, nuas, que por ti; nua
Me vi em alma, crua, o que em ti, vejo, em alma infinita.

Encontro

Veio feliz e trouxestes flores
Alegres, em andanças...
Não passavam as horas, as mãos, não passava o carinho
Na espinha, o beijo
Na nuca, o cheiro
Pele a pele
Nos sorrisos, abraços
Não era caminho, felicidade
São caminhos entre caminhos
Não se beija o futuro, querendo que se torne passado
Se beija o presente, querendo que ele transforme o futuro.

Poema da Doçura

Aos teus abraços te entreguei, o que mais tive
Eram tantos laços, tantas chamas, tantas vozes
Nunca te disse o que daria, pois na verdade o que dizia
Na certeza dos sorrisos acasos, dos verdadeiros braços, me tive

Nunca mais envelheci, o tempo não eram as rugas
As rugas eram nas mãos, juntas, abanando o tempo
E o tempo, a virtude do que passou e torna a passar

Não fui visto por ninguém, não amanheci
Deixei os passarinhos voarem
Deixei ali...
Amada, se me amas, seja breve
Pois a vida é curta, porém o amor é nunca mais.

Vai-te Maria

E vai maria...
Não puder ver, não estive aqui, sou quem tu és,
E lá vai Maria...
Maria da luz, mas a luz apagou
Não mais nas noites, a sombra se foi
Não vivo no lugar, não sou mais teu lugar
Lá se vai Maria, perfumada, vai-te Maria
Não quero água, minha sede cedeu
Não quero a boca, sua voz concedeu
Um palpite qualquer...
Vai Maria, te leves Maria
Seu vestido de seda... Sou agora, Maria
A seda rasgou, a luz apagou, a sombra se foi
Os botões desprenderam, a fome falou
Não queres mais, Maria, não me digas
Vai Maria, Vai Maria
As luvas prenderam, na alma, Maria
Não me tocas mais, Maria
Seja quem tu és, seja verdade,
Seja o que deseja, Maria
Desejas meu beijo, deseja a carne, as pálpebras, as fibras
Deseja que sente, que sinta,  e lhe ponha no colo
Não sou mais àquele, Maria
Sou a mim mesmo, porém não te levo mais, Maria
Vai-te Maria...
Seu abraço não haverá braços, seus ombros despencarão
Sua rosa entornou o botão, sua lágrima acordou a raiz
Brotou o caule, esperança
Me entregues, Maria
A flor de seios fartos, de espinha tênue, de luz exausta
Me perdoe, Maria, sou incrédulo!
Sou ausente, não te mereço
Não te cultivo, o que cultivaste
Minha alma é mundana, é de vidro
Maria, absolva-me de tanta alegria
Pois o que te faz feliz, me entristece
Salve-me de um abismo tórrido, abismo d'alma
Me deixe o sal que sua, molhar-me todo
Lhe tornaste meu peito, que me tornarei seu coração
Me deixe, Maria
Vamos Maria, Vamos...