Páginas

sábado, 4 de outubro de 2014

Confissão do Mesmo

Confissão do Mesmo
E se por algum espaço caminhasse sobre mim mesmo
Se toda matéria perdida, a fome do tempo voltasse
Lentamente por terra
Rastejando sobre um espaço sem tempo
Numa escuridão maior que a vida,
que os sonhos
Não me visse em lugar algum
Não sentisse mais a pele, o tato das pedras
As ladeiras no horizonte, nada!
Se aos poucos, com os pés, tateasse redondilhas
E os corações, não menos pisados, também falassem
E o céu abrisse em uma calma indissipável
Velho e necroso ar respirável
Sinto que meu peito também os abre, entra-me
E desafoga um oceano de abismos
Que no eco se perdeu
Meu acaso, se tornou encontro
Instante do futuro
Olha, escuta, sente as palavras dos pássaros
São nelas que a verdade habita
Na mesma ponte do passar noturno, me vi parado
Um corvo da certeza, sem resposta
Mas como seus olhos demorassem a responder; os vi, como nuvem de chumbo
Atados nos risos que neles, perenes, agradecia
Todas as mãos já erguidas, fazendo os olhos chorar no rajar do vento.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Regresso

O que descrever como tempo?
O que diria ao tempo, ao medo, ao ferro?
Que esse medo nos destrua
Nos erga, mate-me como fel de tempos
E todo tempo, numa volta rotacional de astros
Não desfaça o que o tempo criou
A semente, o beijo, o choro
As formas tão simples de amar
o próximo.. Chega a ser distante...
Medo, quem disse que tens? 
Ama a mão áspera
Conta as areias do sal
O deserto causticante, nas vísceras veias...
Ah meu amor mais amante, como digas que não ame
Como dizer que tempo é curvo, mate-me se for capaz, tempo!
Taque-me todo ferro dessa língua inabitada, desse ardor incapaz
Traga-me de volta a solidão das noites
Leve-me os exageros do sol, da manhã perdida
Até nessa árvore que brota, altiva na praia alcalina
Se deite em prantos nos meus pés a me beijar
Não digas que errei, meus erros serão seus também
Mas apesar de todas as idas, a volta será o átomo
de um abraço tão vivo, quanto esse mar que me faz de horizonte.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

O Tempo Negro

O homem todo dia levanta
Levanta da própria terra, da própria cama
da imensa casa, da eterna rua
O homem como o dia, renasce da própria terra
Da imensa cama, da eterna casa, da inerte rua
O homem que renasce, volta a imensa terra,
a eterna cama, a inerte casa, a sombra da rua
O homem que volta, não é o mesmo que foi
Ele disse: sou homem, mas não tinha suas idades
O homem que tinha, já foi-se...
O homem que retorna da inerte cama, volta a sua casa
e come a lama, que desceu da rua inefável de entranhas
O homem que se cansa não desiste, é instante e restante
Bebe o que sobra na xícara ao lado da cama
Que volta sob a mulher em chama, que persiste na terna alegria
O homem que vai a lua, escraviza a lua, dedetiza a lua e fica
Não resiste ao homem que dentro da casa, fica, com família e poeira
até a casa, ao pó se eternizar
O homem que se foi, não é o mesmo que ficou
O homem que na porta do sol, bateu, era o mesmo da eternidade
O homem que deita na mesma cama, na imensa sombra, na inerte paisagem
Decide a terra que quer ficar... Bebe da mesma água que a mulher bebeu
Todo homem não desiste, a si mesmo fica a coragem de existir
O homem que não volta, não tem em si mesmo a coragem de nascer, de ser futuro
de ser uma viagem estelar
O homem que do mar se embebedou, me disse: Foste onde, homem cruel?

domingo, 31 de agosto de 2014

O Amor Colhe a Horta

O Amor Colhe a Horta 

Tempo de estar é renascer
O que fica já existiu, sempre existiu
Não temos tempo para passar, o tempo desiste
É fato, matéria do ar
Na rosa que plantemos, nos deixemos
Em forma de amor e ternura
Na forma de alegria, nos fazemos
Numa manhã de sol, numa rua qualquer
Caminhemos até dizer chega...
Chega para eternidade, é nela que o mar sobrevoa
Que nas costas bate e volta em forma de sorriso
Plantemos as alegorias, as riquezas
Colheremos os frutos dos instantes
que nas horas de chuva, fazem falta de si
Amor não existiu, amor permanece como árvore até o fim da vida
Até todas as certezas não existirem mais, até aquele último sol
não compreender porque sobrevive
Nessa terra fofa, que é a matéria da compreensão
Das mãos noturnas sem saber para onde ir, do rio sem mapa
De regar não sabendo se flor haverá
O que fica é o nada e a terra encharcada de incertezas prestes
a florir, frutar, voar... Se não temos tempo de colher
é a saudade que vai ficar, na folha que vai embora, no rastro da certeza
e do vazio que somos nós mesmos.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Paisagem

Paisagem

Era a alma branca, a tela branca
A ilusão branca, os mesmos passos
Tive aqui o tempo de ter, de sentir, criar
Minha miragem, meu pássaro infinito
Minhas reticências...
Nessa tela insípida, criei minha sopa de arbustos
Sem galho... O maior deles era eu
De tronco a troco, sem força pra me erguer
E o vento cortando, um açoite de velho
Mais duro que amor... Mais pobre
Na minha cabeça, sempre pousa um pássaro
Inerte, permanece branco como o quadro
Pronto a partir... Refuga, é a saudade...
Maldita árvore podre que o chama
Sem cabelo, nem dentes... Saudade não morde
Nos come aos poucos, digerindo o coração frio
Nesse líquido avesso
Todas as folhas passam, o que não passa é a vontade de voar
A nuvem que abana, a raiz que enclaustra
A pele que enruga a carne, que nem fala mais essa língua...

Toda forma de vida habitável, é incoerente
As temos, e ao mesmo tempo deixamos de ter
Não confiemos em nós, os olhos são o espelho da solidão.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

A Vida..

Como dizeres para partir
Dizeres a verdade, o que dói
Como caminhas sem pernas, sem alma que constrói
Como falar "eu te amo" para o vento, se ele não responde
Se não fala com sentimento
Como dizeres para ficar, ser eterna no que ama, ser amada
Estando do outro lado da ponte, sem ponte e um rio a cavalgar
Construo todas as pontes, me entrego para o mar
Mas não te deixarei ir com meu coração, que deixei um dia
Para poder te amar.

Para uma pessoa mais que importante... JUJU =)

sábado, 10 de maio de 2014

Sabe-se

Segue nessa vida,
quem não tem cura
Quem já amou ou ainda quer amar
Que não sabe onde pisar
Quem deixou a porta aberta para o outro entrar
Quem não sabe onde morrer
Não sabe como viver
Quem disse o que não pensava
As tolices do mundo
Quem bravo ficou, mas permaneceu com a ternura
Que disse não a um amor repentino
Porém sim, ao amor infinito
Segue nessa vida,
quem não desejou mal de forma convicta
Quem disse adeus, querendo reencontrar
Quem apertou a mão e não quis largar
Quem não sabia andar e escolheu voar
Segue nessa vida,
quem faz dela um infinito
Uma roda sem caminho a caminhar
Quem trouxe e guardou as pedras da montanha
Quem bebeu água num rio claro
Quem trouxe paz a um coração estranho
Quem deitou numa cama qualquer, sonhando com o distante
Quem nunca deixou de sentir o que queria
Quem deixou a realidade e voltou para fantasia
Segue nessa vida,
que do pesar tornou-se findo e das palavras o infindo
Quem esteve e quis ficar, porém não relutou em ir embora àquele que não podia amar
Quem não sabe nada da vida e ainda preza por ela
Quem deu abrigo a um animal arisco, sem saber onde estava o seu amor
Segue nessa vida, todos os que zombaram das estrelas
E nelas ficaram para sempre, como memória e prisão
Segue, quem disse tudo isso e não sabe aonde vai
Porque na verdade, o que é a vida? 
É algo que é instante, que é para sempre
Que é morte, apelo...
Tão distante do peito, que temos vontade ir, mesmo sem saber onde ficar.